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Araçatiba: uma comunidade em movimento |
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Foto: Acervo Ibase

Araçatiba, no Espírito Santo, foi palco de festa em 14 de setembro. A comunidade comemorou a inauguração da Costurart – projeto voltado para a confecção de roupas, artesanatos, trabalhos manuais, penteado afro e culinária – e de telecentro com seis computadores conectados à internet.
Por Flávia Mattar
Fora isso, foi lançada a publicação Araçatiba – Terra de Descendentes de Escravos e Patrimônio da Santa, bem como vídeo, cujo objetivo é o fortalecimento da identidade comunitária. O fortalecimento da identidade local e melhoria das condições de vida estão na pauta dessa comunidade de cerca de 800 pessoas. As transformações pelas quais Araçatiba passa tem como base o Plano de Ação de Desenvolvimento Comunitário de Araçatiba, fruto do trabalho coletivo do Fórum Comunitário de Araçatiba, composto por grupos comunitários, instituições públicas, ONGs, movimentos sociais etc. O Fórum, criado no início de 2006, tem por objetivo definir ações prioritárias para o desenvolvimento comunitário. Todo esse processo contou com parceiros como Ibase, Coep (Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida) e Furnas Centrais Elétricas S.A, que desenvolvem o projeto “Núcleos de Integração: uma proposta para o desenvolvimento comunitário” no local desde 2005.
“Escutar que nós respeitamos o tempo da comunidade é motivo de muito orgulho. Quando chegamos aqui, já existiam pessoas organizadas. Não fomos nós que demos o ponta pé inicial. Tudo o que fizemos foi dar apoio a essa organização. O fortalecimento do Fórum de Araçatiba não foi trabalho do Ibase, mas de lideranças locais. Vale a pena investir na força do povo!”, alegra-se Itamar Silva, coordenador do Ibase.
Adão Gomes, coordenador de responsabilidade social de Furnas/RJ, também esteve presente na comemoração e deu seu depoimento: “as iniciativas acontecem porque sonhamos e queremos transformar o sonho em realidade. É importante que empresas ajudem as pessoas a fazer acontecer. A parceria é muito importante.” As mulheres do Costurart apontaram a ajuda fundamental do Coep nesse sentido: essa instituição abriu as portas mais importantes. “Já chegamos a ganhar R$ 15 mil pela produção de 3.054 bolsas, em menos de um mês, para a Arcelor [empresa voltada para a produção de aço], graças ao apoio do Coep”, conta Janne Coutinho, integrante da Costurart e liderança local.
Apesar de ter desenvolvido esse trabalho para a Arcelor, as 19 mulheres da Costurart – entre costureiras, trançadeiras e cozinheiras – ainda precisam caminhar na busca da auto-sustentabilidade. “Não é imediato, estamos apenas iniciando o processo”, aponta Janne.
Apesar de ainda estarem em processo de formalização de cooperativa, tais mulheres já atuam baseadas nos ideais da economia solidária. A renda é dividida por igual, entre todas as participantes, sendo que um percentual do trabalho é revertido para a manutenção dos espaços e atividades. “O percentual que revertemos para a casa é debatido entre as integrantes. Não é fixo. Sempre conversamos e entramos em acordo”, complementa Janne.
Identidade
Um importante objetivo da comunidade, discutido no Fórum Comunitário de Araçatiba, é o fortalecimento da identidade. A publicação, realizada por Ibase, Coep, Furnas e pelo Fórum Comunitário, e o vídeo, que contou com o apoio da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), têm esse objetivo. Foi utilizado como recurso metodológico a técnica da história de vida e da história oral.
“Já percebemos resultados entre os jovens, que se interessam por trançar os cabelos e por fazer o soteco, prato local que estava esquecido, [composto por creme de banana verde e ensopado de peixe]. Eles fazem uma versão do soteco, acrescentam outros ingredientes”, anima-se Janne.
Emiliana Coutinho da Silva, 77 anos, conhecida como dona Nini, mãe de Janne, garante que as pessoas idosas também estão animadas. “As pessoas estão se conscientizando que são negras e que não é preciso ter vergonha disso. Os idosos estão animados e procuram incentivar os jovens a resgatar sua tradição. Eles têm o apelo do novo”, constata.
“Os idosos estão mais abertos à tradição”, concorda uma das trançadeiras da comunidade, Josiane Vieira Ribeiro, 17 anos. De acordo com Anna Angélica Gomes Alves, 17 anos, “muitas vezes isso acontece porque temos vergonha de falar, de nos colocar. Antes do projeto ter início, não sabíamos que éramos quilombolas. Hoje já nos consideramos”.
Segundo as jovens, ao mesmo tempo que vivem um momento de valorização de sua identidade, de busca das raízes, precisam lidar com o preconceito. Uma das marcas da comunidade é o congo [manifestação da cultura popular, integrante do patrimônio cultural imaterial, que congrega canto, dança e bate tambor. A banda de Congo de Araçatiba tem quase 80 anos]. “Na escola, dizem que congo é coisa de macumba. Eu digo para eles que eles não sabem o que é cultura”, diz a destemida Anna Angélica. Mas também há a valorização. “As pessoas da escola pedem para a gente trançar os cabelos delas”, diz Josiane.
Segundo dona Nini, não há diferença entre homens e mulheres na busca pela valorização da identidade. Porém, a existência de uma iniciativa como a Costurart, composta apenas por mulheres, e a movimentação das mulheres durante as comemorações faz crer que o sexo feminino está bastante atuante nessa tarefa.
Telecentro
Outra prioridade da comunidade é a constituição do telecentro de informática. Em 2008, foi constituído um telecentro na escola municipal local, porém, equipamentos foram furtados e, só agora, foi implementado novamente, contando com seis equipamentos conectados à internet, via rádio, que poderão ser utilizados gratuitamente.
Cerca de 10 jovens, entre 14 e 18 anos, foram capacitados(as) pela Socid – Sociedade Digita e o Senac, em montagem, manutenção e Linux, atuarão como coordenadores do espaço e multiplicadores(as) na comunidade. O objetivo é, a partir de 2010, haver um calendário de cursos.
* Texto publicado no site do Ibase.
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