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Quem deveria acompanhar a implementação do PAC/Favelas?
 


    
Saúde em Manguinhos PDF Imprimir E-mail

Foto:flickr/creativecommons


Marcos Besserman Vianna, professor e médico pediatra, fala sobre alguns aspectos da atual situação da saúde em Manguinhos. Para ele, a participação dos moradores poderá transformar as condições da saúde na região.


Por Elaine Ramos
No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2008, Manguinhos é o quinto pior dentre os bairros cariocas. Para o médico, a transformação desta realidade apenas será possível com a participação popular e desenvolvimento de projetos de saúde associados às outras áreas como habitação, educação, saneamento, renda e emprego. Marcos Besserman foi chefe do Centro de Saúde de Manguinhos e coordenador de projetos sociais na Escola Nacional de Saúde Pública. Atualmente, é vice-coordenador do Grupo de Saúde e Direitos Humanos Helena Besserman – GDHIS/Fiocruz.

Pacto pela Cidadania - Qual seria a realidade atual de Manguinhos em relação à saúde?

Dr. Marcos Besserman Vianna - A começar que Manguinhos é o quinto pior IDH do RJ. É uma das localidades onde o desenvolvimento humano está debilitado e, portanto, compromete bastante a saúde na área. Temos uma população com pouquíssima educação. Há um enorme percentual de gravidez na adolescência. Abuso de drogas lícitas (cigarro, álcool e remédios) e ilícitas (cocaína, maconha e crack). A epidemia das mortes violentas é dramática, a maioria das vítimas é de jovens negros. Há também um alto índice de casos de tuberculose e abandono ao tratamento da doença. Além disso, temos baixos níveis organizacionais da sociedade, baixo nível de comprometimento político e de participação na sociedade.

Pacto - Como é a atuação da Comissão de Saúde da Fiocruz na região?

Besserman - A Comissão de Saúde da Fiocruz se expandiu e é uma área que sempre teve um centro de saúde que atende a comunidade. A quantidade de equipamentos, de recursos humanos e financeiros é bastante razoável. A região também conta com a equipe de saúde da família. E hoje, além desses equipamentos, tivemos a implantação da UPA24h que é uma grande UPA. E temos a promessa de que, agora, com o PAC, ocorra a expansão de 100% da área atendida pelas equipes de saúde da família.

Pacto - Como está a cobertura da equipe de saúde da família em Manguinhos?

Besserman - Se contarmos de uns nove anos pra cá, houve a implantação gradativa de equipes da saúde da família e, hoje, cobre 50% a 60% da área. São equipes compostas de médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde e técnicos de enfermagem. Há também o atendimento odontológico, que se ampliou na área. Esses serviços estão proporcionando um acesso cada vez maior. Mas se não mudar a lógica, se for só acesso, nós vamos continuar atendendo as urgências e emergências e vamos continuar sem realmente transformar a situação de saúde de Manguinhos.


Pacto - No dia da inauguração da UPA, em Manguinhos, foi notória a expectativa dos(as) moradores(as) com relação ao novo equipamento. O senhor acha que é possível a UPA atender às expectativas dos(as) moradores(as) da região?

Besserman - Só com a UPA, com certeza, não. Ela só tem sentido se estiver dentro de um planejamento de saúde global. Não vou dizer que não ajude na resolução de alguns problemas imediatos como: uma criança com febre, alguém passando mal etc. Mas isso não vai resolver o problema de saúde da população. Se ela entrar como uma porta de entrada no serviço de saúde desestruturada do resto, ou seja, da atenção básica, não vai conseguir, nem perto, dar conta das expectativas que a população tem. Integrada à atenção básica à saúde, participação da população e com outros setores, a UPA, certamente, poderá ter um papel importante nessa questão.

Pacto - Investir na equipe de saúde da família seria um primeiro passo?

Besserman - A proposta das equipes de saúde da família é uma proposta que tende a transformar o processo de trabalho em saúde. E por isso pode ser uma proposta que, se for bem realizada, certamente modificará. Mas é necessário que a saúde trabalhe com outros campos de conhecimento. Junto com a educação, com a habitação, com a sociedade civil organizada, junto com a cultura etc.

Pacto - O senhor acredita que o PAC pode minimizar os problemas de saúde nessa região?

Besserman -
Não da forma como está sendo feito: sem ouvir a população, impostas como políticas públicas, sem realmente desenvolver lideranças, sem as discussões com a comunidade. A gente está batalhando para que haja participação popular e que possamos trabalhar com vários campos do conhecimento ao mesmo tempo. Mas não é o que temos visto agora, apesar de insistirmos que a rede de saúde só poderá funcionar se forem priorizado com essas duas questões colocadas.

Pacto - Como o PAC poderia ajudar na mudança desta realidade?

Besserman - Esse processo de saúde e doença não vai se resolver apenas com instrumento de saúde. As pessoas devem compreender que é um processo lento. Não é uma coisa que se faz só com uma medida. Será com a transformação de realidade de vida das pessoas. E que o PAC ajuda no momento em que traz escolas, habitação, saneamento. Mas essas medidas têm de vir acompanhadas de um desenvolvimento maior da população.

Pacto - O que seria ideal?

Besserman - O ideal é que os serviços de saúde sejam adequados às necessidades de saúde da população. E as necessidades de saúde são: melhor habitação, mais educação, saneamento, renda, emprego etc. E é muito importante que haja participação popular. Se as pessoas não tiverem oportunidade para decidir o que fazer de suas vidas, nós não vamos conseguir mudar a situação de saúde. Nós não vamos conseguir transformar a realidade de saúde de Manguinhos. Então, a nossa inserção agora com o PAC, com a teia que está se formando aqui, vai nesta direção.
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