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O diretor do Ibase, Cândido Grzybowski, fala sobre a importância do PAC-Favelas para integração da favela à cidade.
Por: Elaine Ramos
Segundo o Ministério das Cidades, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal beneficiará 11 mil 250 famílias no Complexo de Manguinhos, no Rio de Janeiro. Para isso, serão investidos, aproximadamente, R$ 275 milhões, entre recursos da União e do governo do estado. O diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), sociólogo Cândido Grzybowski, aponta para a importância do envolvimento da população no PAC-Favelas: "Não devemos esperar que a obra, em si mesma, faça milagre. Obra, sem o acompanhamento de toda a sociedade, apenas enriquecerá o empreiteiro", afirma. Nesta entrevista, concedida ao site Pacto pela Cidadania, o sociólogo explica que, somente desta forma, será possível destruir a oposição que existe hoje entre favela e cidade. Desde o ano passado, o Ibase está implementando, junto com a Caixa Econômica Federal (CAIXA), um projeto de acompanhamento do PAC-Favelas, tendo como ponto de observação a experiência de Manguinhos. O objetivo é envolver a população carioca para ampliar os efeitos desses investimentos.
Pacto pela Cidadania - O que é o PAC?
Cândido Grzybowski - O PAC é um esforço do governo Lula em impulsionar o desenvolvimento do país. Parte da idéia de que crescimento gera desenvolvimento. São investimentos pesados, grandes obras urbanísticas de infraestrutura, mas com o objetivo de acelerar o desenvolvimento. E no Rio, este programa foi estendido para as favelas.
Pacto - No que consiste o PAC-Favelas?
Cândido - É uma atenção como nunca as favelas do Rio tiveram. No Ibase, achamos que o PAC-Favelas tem o potencial de enfrentar aquilo que é o maior estigma das favelas: a sua segregação. Favela não é considerada parte da cidade e por isso nós estamos intervindo neste processo, desejamos que esta obra seja para todo o Rio.
Pacto - De que forma essas obras irão mudar a vida da população do Rio?
Cândido - Em nada, exceto se todos tivermos uma nova postura. Não devemos esperar que a obra, em si mesma, faça milagre. Obra, sem o acompanhamento de toda a sociedade, apenas enriquecerá o empreiteiro. Nem mesmo irá beneficiar os próprios moradores das favelas. Não devemos entender o PAC-Favelas como uma relação entre governo e moradores de favelas, entre empreiteira e moradores de favelas, mas sim uma relação de cidadania de um lado e do outro desta muralha. Desta forma, vamos tentar destrui-la e conseguir compartilhar o mesmo território.
Pacto - Como o Ibase está envolvido neste trabalho?
Cândido - O Ibase visa potencializar o PAC-Favelas como política pública de enfrentamento do drama das chamadas “cidades partidas”. Cada cidade tem sua particularidade, mas toda cidade brasileira tem esse problema. E por trás disso, existe ainda uma divisão etnicorracial e cultural, que limita a própria relação e desenvolve esse estigma, vivenciado pela população que mora nas favelas. Acreditamos que esse maciço investimento, do governo federal no PAC, deva ser potencializado para atender ao enfrentamento dessa relação entre a favela e a cidade. Isto tem a ver com toda a cidade. Não é um problema só da favela. Não se trata de tornar a favela mais bonita, mais acessível etc, mas sim que seus moradores se sintam cidadãos desta mesma cidade.
Pacto - O que é o Pacto pela Cidadania?
Cândido - O Pacto reafirma exatamente esta idéia de que favela é cidade, e não uma população condenada a viver em um território degradado. Quem mora em favela é considerado violento, criminoso, tem dificuldade em mencionar o próprio endereço em uma entrevista de emprego etc. O nosso drama é não saber compartilhar o mesmo território urbano. Temos que enfrentar isso, criar um espaço de diálogo. E por isso o Pacto pela Cidadania, para tomamos consciência desta realidade e nos comprometermos em alcançar a mudança. Pela cidade que é de todos e de todas.
Pacto - Por que assinar o Pacto?
Cândido - Significa reconhecer que somos responsáveis por isso e não mais dizer: “Bom, é legal buscarmos essa integração, mas desde que não fiquem na minha porta”. É lamentável, mas muitos pensam assim. Assinar o Pacto é partir da idéia de que devemos compartilhar o mesmo território, a mesma cidade, os mesmos lugares e serviços. É diferente de apenas colocar hospital na favela, mas sim tornar o hospital, que é da cidade, acessível a todos e todas. Trata-se de tornar um lugar de lazer e de cultura acessível a todos e todas. E de enfrentar esse imaginário que segrega. Apesar de cento e tantos anos após escravidão, continua existindo a mesma situação. Esse é o nosso problema e precisamos enfrentá-lo.
Pacto - Então assinar o Pacto significa, em primeiro lugar, reconhecer a existência dessa segregação e, então, nos dispormos a eliminar estas barreiras?
Cândido - Seria isso e reconhecer que favela é uma forma de cidade. No asfalto, muitas pessoas se isolam em condomínios fechados em vez de se incluir. A muralha, que segrega a favela, é a mesma que cerca o condomínio privado, que privatiza o espaço público. Mas as pessoas têm dificuldade em ver isso. Essa é a ruptura que devemos fazer.
Pacto - Qual o próximo passo após essa assinatura?
Cândido - Este Pacto é também uma tentativa de envolver diferentes sujeitos, diferentes atores, diferentes setores desta sociedade em um esforço de criar um Fórum da Cidadania para enfrentarmos estas questões: Por que que isso existe? Como podemos enfrentar? O que precisa ser feito? Qual a responsabilidade de cada um nisso? A primeira reunião do Fórum vai ocorrer no próximo dia 16 de março, com a participação de representantes do governo federal, governo estadual e várias lideranças da sociedade civil e das favelas. Será um momento crucial para fortalecer essa articulação que há tanto tempo estamos buscando em prol da integração entre favela e cidade.
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